Gorda

Na adolescência eu pesava 51kg, uma boa ideia, como eu costumava falar nos bate-papos de paquera, eu estava no meu peso “ideal” e mesmo assim eu assinava Boa Forma, amava ler revistas de dietas, tive uma mãe obesa desde que eu nasci e a segunda gravidez dela, que me deu origem, foi a que a fez engordar mais e permanecer gorda desde então. De alguma forma eu pressentia e temia a gordura. Fui uma criança magra, na maior parte da minha infância, tirando aquela fase de inicio de puberdade, 12/13 anos, com barriga projetada pra frente e uma bomba de hormônios confundindo o corpo, cheguei na adolescência com um corpo ótimo, peso ideal, magra até, mas vivia fazendo dietas. Dos 16 pros 17 comecei a tomar pílula e engordei rapidamente uns 10kg, ainda não era gorda, mas comparado ao ano anterior me sentia muito gorda. Entrei na faculdade de teatro e logo criamos um grupo de amigas que se denominavam “gordinhas”, mais pelos hábitos de comer bolo toda tarde no intervalo dos ensaios do que pelo fato de sermos gordas mesmo. Até os 25, variava meu peso entre dietas, exercícios e momentos de “foda-se”, mas não passava de 5kg para menos ou mais. E durante todo esse tempo me achava fora dos padrões, mesmo estando com o peso ideal. Dos 25 até hoje, 31 quase 32, a balança só subiu, no começo porque desencanei de pensar em revista boa forma, achei tudo aquilo ridículo e passei a cozinhar e comer tudo o que amo sem culpa, depois por questões hormonais, emocionais, de idade a coisa foi se acelerando até que um dia estava com um peso considerado de uma pessoa obesa. Fiz vigilantes do peso, corrida, malhação, dança, nutricionistas, yoga, meditação, tomei remédio, mas a verdade estava clara, para ser magra eu tinha que fazer da minha vida o foco pra isso, vi amigas e familiares se tornarem ex-gordas, orgulhosas de suas conquistas e que passaram a não beber e comer mais em nossos encontros e eu sofria por não querer parar de ser quem eu sou (amo e aceito completamente quem se deu bem nesse caminho, acho lindo de fato quem se encontrou indo pra esse lado). Claro que muita gente vai dizer que é uma questão de saúde, que se exercitar faz bem, que comer direito não precisa ser um castigo, que é só ser mais organizada, que dá pra comer algumas coisas as vezes etc etc… Eu realmente sei de tudo isso. E ultimamente algumas pessoas as vezes me olham com um olhar de dó, puxa ela era tão bonita, algumas chegam a me falar, porque eu me deixei engordar tanto, ou quando eu vou fazer algo pra mudar? Ou que eu não posso me descuidar agora, sou tão nova, depois ficará mais difícil ainda.

Esse ano eu passei por muitas transformações. Foi um ano difícil para tanta gente e pra mim um ano de desafios, superações e frustrações, mas conquistas e consolidações também. E no final uma ficha enorme, do meu tamanho 😉 caiu pra mim: eu amo ser quem sou, de verdade, com todas as durezas que tenho que encarar por ser eu mesma, ainda assim, me sinto confortável de ser quem e como sou e quem se incomoda com isso são os outros e eu sempre tive uma necessidade enorme de agradar os outros, o que tenho tentado mudar ao longo dos anos e é um processo pra vida toda. Eu não preciso, não quero e não vou mais viver pra agradar ninguém.

Claro que fazemos concessões para nos relacionar socialmente e isso faz parte de ser adulto, fazer o jogo, ter empatia, respeitar as outras opiniões, entender que eu sempre posso aprender com quem é diferente de mim, ser mais flexível, tudo isso são missões que tento praticar todo dia. O que mudou é que eu não preciso mais moldar minhas escolhas, minha satisfação pessoal, meus sentimentos, minha vida, nesse papel de alguém que tem que se encaixar na expectativa dos outros. Essa expectativa não é minha.

Eu não quero ser magra! É tão libertador falar isso. Porque para ser magra eu preciso agir como se fosse outra e essencialmente ser quem não sou, esse preço eu não quero pagar. E isso não é abandono, nem desistência, pelo contrário, é autenticidade, amor pela minha essência, vontade de ocupar minha cabeça com outros assuntos, focar em outras conquistas. Não se preocupem com minha saúde, ela está ótima, e assumir minha gordura não é desistir de ser saudável, ainda quero dançar, nadar, meditar, yogar, comer coisas gostosas e saudáveis, só não quero mais contar calorias, me preocupar com medidas, papos, braços, barrigas e afins, quero ser como sou, aceitar minhas curvas, minha beleza, meus privilégios, minha personalidade, e só ser, sem esperar quando e como vou mudar meu corpo. E no calor, vou usar shorts, mini blusa, regata, porque eu posso, porque não é feio ou deselegante, isso tá na sua cabeça, porque por anos colocaram essa imagem de beleza e elegância aí, mas isso não é assim e não quero que esteja mais na minha. Meus padrões estão mudando e eu só posso desejar que vocês tentem flexibilizar o de vocês também.

Então como diz a musa Latrice Royale (recomendo Rupauls drag race, temporada 4 – tem no Netflix) “Get up, look sickening and make them eat it!”
Amor, aceitação e liberdade para todos!