Declarações de Amor por um Glory Hole – 30/100

Eu te amo porque você é mau. Adorava dizer absurdos, e a lógica do que é absurdo varia quando acordamos uma fantasia e os limites se alargam. Você falava sempre baixo para que aquela formação de frase não pudesse ser ouvida por mais ninguém. Dizia às vezes sussurrando, quase inaudível, no meu ouvido. Te amo porque eu desconfiava dos mistérios que você queria frequentar. Nunca julguei, só me excitei. Você queria dividir comigo algo que nem a linguagem dava conta; era uma sequência meio davidlinchyana, da ordem dos sonhos, dos pesadelos. Nessa última vez você chegou de terno, após o seu trabalho, e eu te esperava de boca aberta do outro lado do Glory. Contigo as luzes tinham que ser baixas ou então a vermelha que borrava meu corpo nu em contraste com o seu muito vestido. Eu te amo porque com você eu virava qualquer personagem, admitia qualquer disparate dito, e suspendíamos a moral e os bons costumes. Com você eu também podia ser mau e isso foi tão libertador. Acordávamos que estávamos condenados a curtir viver na sombra e buscávamos abrigo em lugares cada vez mais escuros. Eu te amo porque tinha medo de você, mas confiava e ia. Você não me deixava fazer tudo; muitas vezes fazia até menos do que eu gostaria. Você me interrompia a todo momento e me marcou justamente como uma profunda reticência do tipo: um dia te deixo prosseguir.